Pesca colaborativa com botos já é patrimônio imaterial de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC) desde 2018
Em março de 2026, a oficialização da pesca cooperativa entre botos e pescadores como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan marcou mais do que um rito burocrático; representou a conversão de uma tradição de 170 anos em um ativo estratégico de visibilidade global. Este escudo jurídico, forjado pela colaboração entre a Fundação Catarinense de Cultura (FCC) e instâncias federais, transforma uma prática secular em uma fortaleza protegida de identidade nacional, consolidando Laguna como a "Capital Nacional dos Botos Pescadores" no Livro de Registro dos Saberes. A chancela retira a interação do campo da mera curiosidade local para elevá-la ao status de referência mundial em coexistência interespecífica, estabelecendo a legitimidade necessária para salvaguardar um fenômeno onde a técnica humana e o comportamento animal convergem em uma operação de sobrevivência mútua. Essa base legal é o alicerce para que o status jurídico se traduza na proteção efetiva da mecânica operacional única que ocorre nas águas do complexo lagunar.
No estuário, a "dança sincronizada" entre pescadores artesanais e o boto-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) opera sob uma lógica de produtividade avassaladora: dados científicos revelam que 86% das capturas derivam dessa sincronia, tornando o pescador 17 vezes mais propenso ao sucesso do que em tentativas isoladas. Sem essa parceria, a economia local enfrentaria um colapso imediato. O boto atua como um estrategista deliberado, sinalizando a localização dos cardumes de tainhas com saltos ou batidas de cauda que desorganizam os peixes, facilitando o arremesso preciso da tarrafa. Para o cetáceo, o benefício é vital: além de capturar as presas desnorteadas pelas redes, os botos cooperativos apresentam taxas de sobrevivência 13% superiores, pois o trabalho conjunto os mantém afastados de zonas de pesca ilegal e outros riscos fatais. Essa precisão mecânica, entretanto, não é puramente instintiva; ela repousa sobre um reconhecimento individual profundo que desafia as fronteiras entre as espécies.
Essa interação constitui o que a antropologia define como "comunidades híbridas", onde o conhecimento é fruto de uma coaprendizagem que exige a individuação dos animais. Para os pescadores, os botos não são unidades biológicas genéricas, mas parceiros com nomes e personalidades — como Scooby e sua marcante cicatriz dorsal, Caroba e Figueiredo. Existe uma distinção rigorosa entre os "botos bons" e os "turistas" vadios, evidenciando uma transmissão cultural sofisticada que flui em espelho: enquanto na terra o saber é transmitido via patrilinhagens de pais para filhos, na água a habilidade é perpetuada por matrilinhagens, onde fêmeas experientes ensinam seus filhotes. Este elo social demonstra que a prática é uma construção cognitiva complexa; a perda de um único animal mestre representa a extinção de uma biblioteca de conhecimento não humano, um silenciamento de gerações que aprenderam a decifrar a linguagem do outro.
Contudo, este equilíbrio milenar enfrenta agora um imperativo de conservação diante da ameaça de um desaparecimento cultural silencioso. A reclassificação do boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) — a população específica que habita Laguna — para o status de "em perigo de extinção" pela IUCN é um alerta terminal para um grupo de apenas 60 indivíduos, dos quais meros 40% mantêm o comportamento cooperativo. O antagonista central é a sobrepesca industrial, que ao exaurir os estoques de tainha, ameaça converter o mutualismo em conflito ou no abandono da colaboração por falta de recompensa alimentar. O risco real não é apenas a morte biológica da espécie, mas a extinção de uma cultura única: se o peixe escasseia, o "comportamento de boto bom" se perde, restando apenas animais que não mais saberão interagir. Políticas de manejo sustentável são urgentes para que a diversidade biológica e a riqueza cultural, faces indissociáveis de uma mesma existência, não se tornem apenas registros em um livro de memórias.
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