O tabuleiro político catarinense em 2026 não é para amadores, e o principal enxadrista no entorno da Casa d’Agronômica atende pelo nome de Bruno Mello. O filho do governador Jorginho Mello, e vice-presidente estadual do PL, consolidou-se como o braço operacional mais afiado do governo. Em um movimento que desconcerta tanto aliados quanto adversários, Bruno desenhou uma estratégia que redefine quem é o "inimigo real" na disputa pelo governo e pelo Senado. Enquanto os analistas de superfície buscam um embate direto com o PSD de João Rodrigues, a cartada de Bruno é mais profunda e, reconheçamos, muito mais astuta.
Por que mirar na Esquerda?
Em uma revelação feita ao jornalista Upiara Boschi, Bruno Mello subverteu a lógica esperada. Para ele, o adversário a ser batido em 2026 não é o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, nem as pretensões do MDB. O foco absoluto está na reorganização da esquerda.
A análise palaciana é clara: ao contrário de 2022, o PT não deve encabeçar a chapa. O plano desenhado nos bastidores prevê que Gelson Merísio (PSB) lidere a coligação com o número 40, enquanto Décio Lima (PT) concentra esforços na disputa pelo Senado. Ao personificar a ameaça na "frente de esquerda", Bruno opera uma manobra de polarização clássica. O objetivo é esvaziar o centro e a direita moderada: se o eleitor conservador sentir o retorno da esquerda como uma possibilidade real, ele tende a se abrigar sob o guarda-chuva mais forte da direita — que hoje é o PL.
"Este ano o 13 não vai para a urna. Quem vai é Gelson Merísio, 40, pelo PSB. E o PT vai estar com o Senado, com Décio Lima concorrendo. É a possibilidade dessa esquerda se juntar e fazer 25% até 30% dos votos."
Ao projetar que essa união pode herdar os votos que Décio obteve no segundo turno passado, Bruno tenta marginalizar João Rodrigues, transformando o PSD em um coadjuvante irrelevante diante do "perigo vermelho".
O Veto a Espiridião Amin
Se o discurso sobre a esquerda é tático, o tratamento dispensado ao Progressistas (PP) é de puro domínio de território. Bruno Mello foi enfático ao fechar as portas para qualquer compartilhamento de palanque no Senado. A chapa majoritária do governo será "puro-sangue" PL, com dois nomes de peso nacional: Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni.
O recado para Espiridião Amin foi de uma agressividade política notável. Bruno deixou claro que, se Amin quiser tentar a reeleição, terá que fazê-lo fora da chapa oficial. Mais do que um veto, houve uma sugestão com contornos de humilhação estratégica: a de que o veterano senador deveria concorrer a Deputado Federal para "ajudar o PP" a recuperar sua bancada.
Essa postura de "palanque fechado" sinaliza o fim da era das grandes coalizões horizontais em Santa Catarina. Para o clã Mello, o PP não é mais um sócio, mas um satélite que deve se submeter às condições do PL ou buscar o próprio caminho no isolamento.
Metas Ambiciosas
A confiança de Bruno Mello não é apenas retórica; ela é amparada por uma aritmética ambiciosa que visa o controle total das casas legislativas. Em conjunto com Jorge Goetten, que pilotou o Republicanos até a entrada de Carmen Zanotto na presidência da sigla, o grupo estabeleceu metas que, se alcançadas, darão ao governador uma governabilidade sem precedentes:
PL: Projeta eleger 14 deputados estaduais e até 7 federais.
Republicanos: Estima conquistar 5 cadeiras na ALESC e entre 2 a 3 na Câmara Federal.
Esses números não servem apenas como meta interna; são uma ferramenta de pressão psicológica. Ao anunciar que o PL e o Republicanos podem, sozinhos, formar a espinha dorsal do poder no estado, Bruno reduz o valor de barganha de partidos como o MDB e o próprio PP.
Um Novo Cenário ou uma Provocação de Guerra?
As declarações de Bruno Mello são um misto de pragmatismo frio e provocação calculada. Ao escolher a esquerda como oponente ideal, ele tenta reeditar o clima de "nós contra eles" que foi tão bem-sucedido para o bolsonarismo em solo catarinense, empurrando qualquer alternativa de direita moderada para o limbo da indecisão.
No entanto, a estratégia de isolar figuras históricas como Espiridião Amin e ignorar a força regional de João Rodrigues é um jogo de alto risco. O PL de Jorginho e Bruno Mello aposta todas as fichas na força da própria sigla e na polarização ideológica. Resta saber se a direita catarinense aceitará essa hegemonia imposta ou se a exclusão de lideranças tradicionais acabará por pavimentar, ironicamente, o caminho para a própria frente de esquerda que Bruno diz temer. O tabuleiro está montado, e o PL acaba de mover sua peça mais agressiva.

Política em foco
Upiara Boschi é um jornalista com vasta experiência e reconhecida atuação na cobertura política de Santa Catarina. Com uma carreira consolidada, tornou-se um dos principais nomes na análise dos bastidores do poder no Estado, sendo referência para o público e para a classe política. Atualmente, mantém seu próprio portal de notícias, o upiara.net, e é comentarista em veículos parceiros, como o Grupo ND e a Rádio Eldorado, de Criciúma. Ao longo de sua carreira, Upiara Boschi se destacou pela apuração rigorosa, pela análise aprofundada dos cenários políticos e pela capacidade de traduzir os complexos movimentos do poder para o grande público. Seu trabalho é caracterizado pela busca constante por informações exclusivas e pela contextualização dos acontecimentos, oferecendo aos seus leitores e espectadores uma compreensão mais ampla da política catarinense.
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