Veto presidencial ao projeto que altera cálculo de penas e progressão de regime será discutido pelo Legislativo.
O Cabo de Guerra do Estado de Direito
O Brasil assiste a uma nova e aguda fricção institucional entre os Poderes da República, um verdadeiro cabo de guerra que extrapola o campo político e mergulha nas entranhas da técnica jurídica. De um lado, o Poder Executivo busca consolidar uma narrativa de rigor e defesa das instituições; de outro, o Legislativo sinaliza uma contraofensiva que pode desidratar punições severas. O epicentro deste embate é o Veto nº 3 de 2023, aplicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Projeto de Lei 2162/2023, o "PL da Dosimetria". O anúncio do veto ocorreu em um momento de altíssima carga simbólica: o ato que marcou o aniversário dos ataques às sedes dos Três Poderes. Enquanto o governo tenta transformar a "canetada" em um bastião contra a impunidade, a cúpula do Congresso Nacional prepara-se para demonstrar que a última palavra sobre a "matemática das penas" pertence ao Parlamento.
A Data Marcada: O Confronto no Congresso Nacional
O presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União-AP), não apenas aceitou o desafio como conferiu ao tema uma prioridade absoluta. Ao convocar uma sessão extraordinária, Alcolumbre isolou o debate sobre o PL da Dosimetria como o único ponto de pauta, um movimento que sinaliza o desejo do Legislativo de reafirmar sua prerrogativa de revisão sobre os atos do Executivo.
Data da Sessão: 30 de abril.
Autor da Convocação: Davi Alcolumbre (Presidente do Congresso Nacional).
Item Único da Pauta: Veto nº 3 de 2023 (referente ao PL 2162/2023).
A Matemática da Impunidade? Entendendo a Mudança no Cálculo das Penas
A essência do PL 2162/2023 reside em uma alteração cirúrgica na lógica do Direito Penal brasileiro. Atualmente, a aplicação das penas para os crimes contra as instituições democráticas segue o princípio do cúmulo material: se um réu comete os crimes de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e de Golpe de Estado, as penas são somadas. O projeto aprovado pelo Congresso propõe substituir essa soma pela aplicação de uma pena única — a mais grave —, quando os crimes ocorrem em um mesmo contexto.
Na prática, essa mudança técnica opera como um "apagamento" jurídico de uma das condutas. Ao tratar duas violações graves como um único ato para fins de cálculo, o sistema penal deixa de punir cumulativamente crimes que possuem bens jurídicos e tipificações distintas no Código Penal. O presidente Lula, ao vetar o texto, defendeu a higidez das condenações já proferidas, contrastando a "robustez" do processo legal com as críticas políticas:
"Todos eles tiveram amplo direito de defesa, foram julgados com transparência e imparcialidade. E, ao final do julgamento, condenados com base em provas robustas, e não com ilegalidades em série, meras convicções ou [apresentações de] Powerpoint fajutas."
Os Beneficiados: Do Alto Escalão Militar ao Ex-Presidente
Se o veto for derrubado, a nova engenharia da dosimetria terá um efeito em cascata imediato sobre figuras de proa da política nacional e das Forças Armadas. A redução drástica do tempo total de condenação não é apenas uma questão aritmética; ela altera profundamente a progressão de regime. Uma pena que hoje atinge décadas de reclusão (exigindo longo tempo em regime fechado) poderia ser reduzida a um patamar que permita a transferência acelerada para o regime semiaberto ou aberto.
Entre os nomes que figuram como potenciais beneficiários diretos dessa mudança no cálculo penal, destacam-se:
Jair Bolsonaro, ex-presidente da República;
Almir Garnier, ex-comandante da Marinha;
Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa;
Walter Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil;
Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).
Para esses réus e investigados, a derrubada do veto representa a diferença entre anos de confinamento e a possibilidade de uma liberdade vigiada em curto prazo.
O Efeito Colateral: O Impacto nos Criminosos Comuns
A análise jurídica não pode se limitar ao espectro político. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil alertam para um efeito colateral sistêmico: o PL da Dosimetria altera a "forma geral de cálculo das penas". Isso significa que a mudança estabelece um precedente que transborda dos crimes contra o Estado para a criminalidade comum. Se a lógica da progressão de regime for flexibilizada e o cálculo das penas for suavizado de forma generalizada, abre-se uma brecha para que defesas de criminosos condenados por delitos diversos solicitem a aplicação da norma mais favorável (lex mitior), provocando uma redução no tempo de permanência em regime fechado em todo o sistema prisional.
Justiça ou Conveniência Política?
A decisão que o Congresso Nacional tomará no dia 30 de abril definirá o tom da resposta institucional aos eventos que abalaram o país. A derrubada do veto de Lula pode ser lida sob duas óticas irreconciliáveis: como um ajuste técnico necessário para evitar penas que alguns consideram desproporcionais, ou como uma manobra de conveniência política desenhada para blindar aliados e desarmar o rigor da Justiça.
Diante da gravidade dos fatos e da fragilidade das instituições, fica a provocação central: o Brasil está pronto para aceitar que uma mudança na "matemática das penas" reescreva o desfecho de ataques diretos à sua democracia, ainda que isso signifique, por tabela, abrandar o rigor do sistema penal para a criminalidade comum?
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