O Mapa Autismo Brasil (MAB) aponta disparidades entre a rede pública e privada e o impacto socioeconômico nos cuidadores.
O Instituto Autismos divulgou, no dia 9 de maio, o estudo Mapa Autismo Brasil (MAB), o primeiro levantamento sociodemográfico de escala nacional focado em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A pesquisa foi realizada por meio de um formulário online entre março e julho de 2025, contando com 23.632 participantes, incluindo autistas e responsáveis de todas as regiões do país. O objetivo foi identificar o perfil socioeconômico e o nível de acesso a serviços essenciais. A principal conclusão indica que o acesso ao diagnóstico e a intervenções terapêuticas permanece limitado e em níveis significativamente inferiores às recomendações internacionais.
Perfil Sociodemográfico do Autista Brasileiro
O levantamento traçou um panorama detalhado da população autista participante, evidenciando recortes étnicos e econômicos:
- Recorte étnico-racial: 60,8% autodeclaram-se brancos; 32% pardos; 5,2% pretos; 1,1% amarelos e 0,25% indígenas.
- Gênero e faixa etária: Predomínio do sexo masculino (65,3%) e de crianças e adolescentes até 17 anos (72,1%).
- Níveis de suporte: O nível 1 representa 53,7% da amostra; o nível 2, 33,7%; e o nível 3 (maior necessidade de suporte), 12,6%.
- Renda familiar: 28,6% possuem renda de até R2.862;∗∗37,9 2.862 e R9.540;e∗∗20,33 9.540.
A pesquisa também catalogou as principais condições que coexistem com o TEA:
Comorbidade e Porcentagem
TDAH - 51,5%
Transtorno de Ansiedade - 41,1%
Transtornos do Sono - 27,9%
Distúrbios Gastrointestinais - 23,2%
Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem - 19,3%
Altas Habilidades / Superdotação - 19,1%
Transtorno Depressivo - 17,5%
Deficiência Intelectual - 16,4%
Transtornos Específicos da Aprendizagem - 12,1%
Sobre a comunicação, o estudo traz dados técnicos cruciais para políticas de acessibilidade: 55,5% utilizam frases longas e completas, enquanto 29,5% apresentam ecolalia. Outros 28,1% falam poucas palavras ou frases. O levantamento destaca que 7,65% não utilizam fala nem Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), enquanto 7,66% dependem de métodos de CAA (falam pouco ou não falam) e 0,59% utilizam Libras.
Barreiras no Diagnóstico e o Papel do SUS
O acesso ao diagnóstico definitivo está concentrado no setor privado. A rede particular e os planos de saúde respondem por 78,2% das confirmações, enquanto o Sistema Único de Saúde (SUS) é responsável por apenas 20,4% dos laudos. Nota-se, contudo, que a dependência do SUS para o diagnóstico é significativamente maior nas regiões Norte e Nordeste.
O estudo revela uma distorção técnica entre a mediana e a média de idade no diagnóstico: enquanto a mediana é de 4 anos, a média sobe para 11 anos. Esse intervalo de sete anos representa uma "década perdida" para os casos diagnosticados tardiamente, impedindo a intervenção precoce. Segundo o Instituto Autismos, o volume de diagnósticos em idades avançadas eleva a média nacional, mascarando a realidade de muitos brasileiros.
A identificação dos primeiros sinais é feita majoritariamente por familiares (55,9%). Médicos (7,3%) e professores (9,4%) apresentam índices baixos de alerta inicial. Os principais responsáveis pela emissão dos laudos são os neurologistas ou neuropediatras (67%) e psiquiatras (22,9%).
O Gargalo das Terapias e a Carga Horária
As terapias mais frequentes são a psicoterapia (52,2%), a terapia ocupacional (39,4%) e a fonoaudiologia (38,9%). A disparidade de acesso é evidente: na terapia ocupacional, o uso é de 33,8% no SUS contra 64,5% nos planos de saúde. Além disso, 16,4% dos participantes declararam não realizar nenhum tipo de terapia.
Sobre a intensidade do tratamento, o dado é crítico:
56,5% dos autistas realizam, no máximo, duas horas semanais de terapia. A concentração em baixa carga horária indica que a maioria recebe suporte terapêutico aquém do ideal para as necessidades de alta intensidade e abordagens multidisciplinares recomendadas.
Quanto ao investimento mensal, 24,8% dos entrevistados gastam entre R$ 501 e R$ 1.000, enquanto 22,2% investem entre R$ 1.001 e R$ 3.000.
Impacto sobre Cuidadores e Realidade Escolar
A responsabilidade pelo cuidado é centralizada na figura parental: 96% dos respondentes são pais ou mães, sendo que 92,4% desse grupo são mulheres. Esse cenário reflete diretamente no mercado de trabalho, com 30,47% dos cuidadores desempregados ou sem renda própria.
No âmbito educacional, 83,7% dos autistas frequentam a escola, divididos entre 52,26% na rede pública e 31% na rede particular. Todavia, 39,9% dos estudantes não possuem nenhum tipo de apoio ou recurso de acessibilidade.
O Instituto Autismos ressalta que "a presença na escola não garante, por si só, a inclusão efetiva", evidenciando a fragilidade na implementação de recursos educacionais previstos em lei.
Vida Adulta e Benefícios Sociais
Para autistas adultos (18 a 76 anos), a exclusão laboral é um desafio estrutural, com taxa de desemprego de 29,9%. Entre os empregados, predominam o serviço público (21,1%) e o regime CLT (20%), seguidos por trabalhadores autônomos (8,1%), pessoas jurídicas (6,7%) e atividades sem carteira assinada (5,9%).
Sobre os benefícios utilizados por 76,6% da amostra, há uma distinção clara:
Identificação: Cartão de identificação TEA (36,7%) e atendimento preferencial (30%).
Financeiro e Gratuidade: Benefício de Prestação Continuada - BPC (16,6%), passe livre (12,9%) e isenção de IPVA (7,7%).
O Mapa Autismo Brasil surge para preencher a lacuna qualitativa deixada pelo Censo 2022 do IBGE. Enquanto o Censo quantificou a população em 2,4 milhões de pessoas com TEA, o MAB detalha como essas pessoas vivem e quais barreiras enfrentam. O estudo serve como base técnica indispensável para a formulação de políticas públicas e para a defesa de direitos, visando mitigar as desigualdades de acesso diagnosticadas em todo o território nacional.
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