Maristela, ex-agente da Polícia Civil e pré-candidata a deputada estadual, analisa o impacto da Serra da Rocinha no desenvolvimento regional e discute o cenário político para 2026.
O Fim de um Gargalo Histórico
A inauguração da Serra da Rocinha, em Timbé do Sul, não é apenas a entrega de uma obra viária; é o encerramento de um capítulo de isolamento logístico que perdurava por décadas. O que estamos presenciando é a remoção de um "muro" geográfico que impedia a fluidez entre o agronegócio da parte alta do Rio Grande do Sul e os terminais portuários catarinenses. Como analista, vejo um marco que transcende o concreto: é a integração definitiva de mercados vizinhos que, por falta de infraestrutura, operavam de costas um para o outro. Mas, para além da festa oficial, esta obra nos obriga a olhar para os impactos invisíveis e para a complexa engrenagem econômica que ela acaba de acionar.
A "Vice-Campeã" em Beleza e Engenharia
Com um investimento total de R182milhões sendoR 62 milhões aplicados no lado catarinense e R$ 120 milhões no gaúcho — a Serra da Rocinha já nasce com o selo de segunda estrada mais bonita do país. Perde apenas para a nossa icônica Serra do Rio do Rastro, com a qual compartilha semelhanças técnicas notáveis: são 13 quilômetros de subida pavimentados integralmente em concreto.
Essa escolha pelo concreto não é estética, mas estratégica. Em um terreno de relevo acidentado e alta incidência de deslizamentos, a durabilidade e a segurança do pavimento rígido são fundamentais. A obra exigiu alta tecnologia em contenção de barreiras e uma solução de engenharia aérea audaciosa: a ampliação de curvas através de suportes de concreto, permitindo o tráfego de cargas pesadas onde antes o espaço era inexistente. Como bem pontuou Maristela, liderança da região da Amurel (Associação de Municípios da Região de Laguna):
"Ela só vai perder no quesito de espetacularidade, grandiosidade, para a nossa Rio do Rastro, porque ela também tem 13 km de subida e também com um chão feito em concreto [...] por uma questão de segurança e o fato de ter muito deslizamento."
Uma Rota de 2.500 km: Do Atlântico ao Pacífico
A visão regionalista não deve nos cegar para a escala geopolítica deste projeto. A Serra da Rocinha é um elo vital de um corredor bioceânico de 2.500 km que pretende conectar o Porto de Imbituba, no Atlântico, ao litoral do Chile, no Pacífico. Esta é uma "linha de desenvolvimento" que altera o tabuleiro comercial do Cone Sul.
Entretanto, a eficiência plena ainda depende da conclusão do lado gaúcho. Embora o trecho catarinense esteja finalizado, restam 8 km de pavimentação no Rio Grande do Sul, na divisa com São Borja, que incluem o desafio de uma ponte de 400 metros de extensão. A previsão é que esse gargalo final seja resolvido até o fim do ano, consolidando uma alternativa real para o turismo transcontinental e para o escoamento de riquezas que hoje fazem voltas desnecessárias pela BR-101.
A Matemática dos Portos: O Trunfo de Imbituba (6 vs. 14 Dias)
Para o setor produtivo, a logística se resume a tempo e custo. E é aqui que Imbituba ganha o jogo. Historicamente, a produção gaúcha escoava pelo Porto de Rio Grande (RS), que enfrenta sérios problemas de calado (profundidade) e burocracia no aporte.
A matemática é cruel para a concorrência e generosa para Santa Catarina: enquanto o tempo de espera para aporte de um navio em Rio Grande varia de 8 a 14 dias, no Porto de Imbituba a operação ocorre entre 6 e 8 dias. Para o produtor de grãos, economizar quase uma semana em taxas de depósito e tempo de navio parado é a diferença entre o lucro e o prejuízo. A Serra da Rocinha é, portanto, o atalho que faltava para tornar o porto catarinense o destino natural e mais competitivo para o agro gaúcho.
O Trilho que Alivia o Asfalto: O Papel da Ferrovia Teresa Cristina
Como analista, é preciso alertar: tecnologia resolve um problema e, quase sempre, cria o próximo. O aumento do fluxo de caminhões na Rocinha pressionará a BR-101, agravando gargalos críticos como o Morro dos Cavalos. A solução não pode ser apenas rodoviária.
A saída passa pela multimodalidade, com destaque para a Ferrovia Teresa Cristina e o Porto Seco de Criciúma. A ampliação da concessão ferroviária é urgente para viabilizar a cabotagem de forma eficiente. Nos trilhos, o vagão corre "paralelo ao navio", permitindo o carregamento direto e desonerando a pista asfáltica. Sem esse equilíbrio entre trilhos e asfalto, corremos o risco de ver a infraestrutura regional colapsar sob o próprio sucesso do aumento de demanda.
Política não é "Presente": A Analogia do Caixa Eletrônico
É fundamental desmistificar a narrativa política de que obras e emendas parlamentares são atos de "bondade". Como ressaltado por Maristela em uma perspectiva "bairrista" e lúcida sobre a Amurel, não existe política pública sem o dinheiro gerado pela sociedade produtiva. A analogia, extraída de um meme popular mas profundamente precisa, ilustra a relação que o cidadão deve ter com seus representantes:
"Aplaudir entusiasmado dinheiro público que vem através de emenda parlamentar [...] é a mesma coisa que aplaudir o caixa eletrônico quando você vai lá sacar o teu dinheiro do pagamento do mês. Ninguém vai lá sacar dinheiro no caixa eletrônico e aplaude porque o caixa te entregou dinheiro, porque é teu."
O desenvolvimento econômico é o motor que gera impostos; a obra é apenas a devolução obrigatória desse valor em forma de serviço. Tratar investimentos de R$ 182 milhões como "presentes" é ignorar que cada centavo saiu do suor do produtor e do trabalhador catarinense.
O Desafio de 2026 e Além
A Serra da Rocinha é o novo palco onde a logística e a política se encontram. Olhando para o cenário de 2026, o desafio do eleitor sul-catarinense será filtrar o ruído do marketing político. É fácil espalhar outdoors falando em "Estrada Boa" enquanto dados reais mostram a educação (IDEB) em declínio, escândalos na Celesc e segurança pública perdendo fôlego.
A infraestrutura é um ativo técnico, não uma peça de propaganda. Como você, leitor, avalia o papel dos seus representantes? Eles estão focados na integração logística real e na manutenção desses avanços, ou estão apenas operando o "caixa eletrônico" das emendas em busca de aplausos fáceis? A estrada está pronta, mas a vigilância sobre quem a gere e sobre o retorno real dos nossos impostos apenas começou.
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