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O Gigante de Vidro e Sal: A Agonia do Hotel Itapirubá

Onde o luxo apodrece sob o olhar de quem nunca partiu.

09/04/2026 17h40 | Atualizada em 09/04/2026 17h46 | Por: Redação - Publicado por Nicolaite

Existem lugares que não deveriam estar vazios. Espaços projetados para o riso, a música e o tilintar de taças de cristal carregam uma energia latente, uma memória muscular que resiste ao tempo. São os chamados lugares liminares: portais entre o que fomos e o que o esquecimento devora. Caminhar pelos restos do Hotel Itapirubá, em Laguna, é sentir essa inquietude do vazio na pele.

O ar saturado de salitre não apenas corrói as vigas de ferro expostas; ele parece sussurrar que você é um intruso. O silêncio ali não é ausência de som, mas uma presença pesada, interrompida apenas pelo estalo rítmico de azulejos se desprendendo como escamas de um animal morto. Ao cruzar seus corredores gelados, a sensação de ser observado por sentinelas invisíveis é inevitável. Você percebe, com um calafrio, que a ruína é um espelho: o que aconteceu com este gigante pode, um dia, acontecer com as suas próprias certezas.

Inaugurado em 1978 pelo Grupo Battistela, o Hotel Itapirubá nasceu sob o signo da opulência aristocrática. 

Foi o primeiro resort "pé na areia" de grande porte em Santa Catarina, um colosso de 15 mil m² de área construída que dominava a paisagem. No passado, o mármore brilhava sob os passos da elite social que ocupava seus 213 apartamentos. A Black Disco — a danceteria de paredes negras e luzes vibrantes — era o coração pulsante da noite catarinense. Hoje, o contraste é uma ferida aberta. O mármore, que outrora sentiu o peso da nata social, agora é uma pele fria e rachada, descamando sob o hálito corrosivo do Atlântico. O luxo, descobrimos tarde demais, é apenas uma membrana fina e frágil que tenta esconder a decadência que já nos aguarda por baixo.

A queda do gigante foi lenta e, depois, súbita. No final dos anos 90, as dívidas com o Banco Sudameris selaram o destino do imóvel. Houve uma breve tentativa de ressurreição entre 2002 e 2004, quando Orlando Becker assumiu a operação. Contudo, em dezembro de 2004, uma oferta irrecusável transferiu o hotel para um empresário que era, ironicamente, um vídeo maker. Sem qualquer experiência em hotelaria, o novo proprietário criou um cenário de fantasia administrativa: inchou folhas de pagamento e ignorou financiamentos. O resultado foi uma falência fulminante em apenas 12 meses. O hotel fechou em 2009, e o "dia seguinte" foi um banquete de abutres. Funcionários sem salário e saqueadores levaram tudo, transformando um imóvel de R$ 54 milhões em uma carcaça oca.

A anatomia da ruína é desoladora: a piscina de fibra descasca como pele queimada pelo sol; a cozinha industrial, onde banquetes eram preparados, agora exala o cheiro de terra úmida e mato que invade o concreto. Nos porões, a sala do cofre ainda exibe sua pesada porta de aço — um monumento à ironia, protegendo agora apenas sombras e o nada.
Mas o que realmente habita o Itapirubá? A alma do lugar está presa à lenda da Noiva de Itapirubá, cujas versões ecoam como gritos abafados:

A Traição: Durante a lua de mel, a noiva teria avistado da sacada o marido nos braços de outra na piscina. O salto para a morte teria sido seu último ato de desespero.

O Mistério do Quarto: Um casal recém-casado entra para a primeira noite; pela manhã, a noiva é encontrada morta, sem explicação, selando o fim do hotel.

As Bodas de Sangue: Segundo o escritor Dário Cabral Neto, o hotel celebrava bodas luxuosas. A trilha era iluminada por lamparinas cujas chamas tremiam ao vento. De repente, gritos. O marido mergulha na piscina para resgatar a esposa sem vida. A festa acaba em silêncio absoluto, e a limusine parte vazia, com os faróis baixos, sob o amarelo pálido das luzes.

Relatos de choros à beira da piscina e vultos brancos cruzando as sacadas são constantes. E embora Becker afirme que a história foi uma invenção de recreadores nos anos 90, o folclore ganhou vida própria. Em Itapirubá, a mentira repetida pelo tempo tornou-se a única verdade que restou nas paredes.

Exploradores urbanos e investigadores paranormais trazem provas que arrepiam a lógica. Relatam o som de gritos femininos captados antes mesmo de as câmeras serem ligadas. Durante sessões de Spirit Box, vozes respondem nomes como "Carlos" e ordenam: "Saiam". O fenômeno visual mais comum são os orbs luminosos — esferas de luz capturadas em vídeo que dançam na escuridão dos andares superiores.

Regras Não Escritas para quem ousa entrar:

Não ignore o perfume de flores: Em corredores onde o sol não bate e as plantas não crescem, o cheiro súbito de perfume floral surge perto do desenho de uma noiva de cabelos vermelhos em uma parede.

Vigie os poços dos elevadores: Há relatos de que, no inverno, os cabos inexistentes parecem ranger e as cabinas fantasmas sobem e descem sozinhas no escuro.

Não filme as luzes: Exploradores alertam que focar as lentes nos orbs parece intensificar a atividade e atrair sombras que "correm" para fora do campo de visão.

Atualmente, o gigante aguarda o martelo do juiz. Dois leilões, um de R54 milhões e outro de R$ 50 milhões, terminaram desertos.

Ninguém quer comprar o peso das memórias que ali residem. Fala-se na transição para um moderno complexo de condomínios, mas fica a pergunta: é possível dormir em paz sobre fundações que retêm tanto abandono? O concreto pode ser demolido, mas a energia de lugares marcados pelo sofrimento e pelo vazio raramente desaparece.

O Hotel Itapirubá é um monumento à impermanência. Quando o sol se põe e a escuridão reivindica os quartos de banho azul e rosa, percebe-se que as feridas da arquitetura são profundas demais para serem curadas apenas com reformas. Em Itapirubá, o mar não é a única coisa que sussurra à noite; às vezes, as ruínas falam muito mais alto.

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