Dia Nacional do Sistema Braille.
No coração de Tubarão, uma revolução silenciosa é tecida diariamente. Ela não se faz com grandes discursos, mas com o relevo de células Braille e o estalo rítmico das contas de um Soroban. No Dia Nacional do Sistema Braille, voltamos nossos olhos para uma realidade que muitos preferem ignorar: a cegueira não é o fim da linha, mas o início de uma complexa jornada de adaptação.
Instituições como a ATIDEV (Associação Tubaronense para Integração ao Deficiente Visual), sustentada por uma equipe dedicada de cerca de 15 profissionais e voluntários, provam que a barreira para a integração não está na falta de visão, mas na ausência de ferramentas e na miopia social que nos impede de enxergar o potencial humano.
O Código Secreto das Bengalas: Muito Além do Branco
Para quem caminha no escuro ou sob o véu da baixa visão, a bengala é mais que um suporte; é uma extensão táctil da própria mente. No entanto, suas cores comunicam um código vital para a segurança e interação social que a maioria dos videntes desconhece:
Branca: Utilizada por pessoas com cegueira total.
Verde: Identifica quem possui baixa visão (resíduo visual que permite alguma percepção, mas não autonomia plena).
Vermelha (em segmentos): Quando a bengala (seja ela branca ou verde) apresenta gomos centrais na cor vermelha, indica que o usuário possui surdocegueira, uma condição que exige atenção e abordagens específicas.
Além da cor do corpo, a ponteira exerce um papel técnico crucial. Refletiva, ela atua como um sinalizador de segurança, especialmente ao entardecer ou à noite.
"A bengala... na parte de baixo, pode ser colorida com amarelo ou com vermelho para ser um sinalizador. Quando à noite reflete um farol, ela brilha para já chamar a atenção." — Professor Pedro Barbosa.
Soroban: A Calculadora que Desafia a Velocidade Digital
Enquanto o mundo moderno se perde em telas touchscreen, os alunos da ATIDEV dominam o Soroban, um instrumento milenar chinês que transforma matemática em movimento. A mecânica é de uma precisão fascinante: em uma moldura rígida, contas de madeira deslizam por hastes divididas por um eixo central. As quatro contas inferiores valem 1 unidade cada, enquanto a conta superior isolada vale 5. O cálculo só "existe" quando as contas são movidas em direção a esse eixo central.
O treinamento exige coordenação bimanual: a mão direita opera as primeiras quatro classes decimais, enquanto a esquerda assume da quarta à sétima. Para os iniciantes, utiliza-se uma almofada de retenção sob as contas para evitar que movimentos bruscos desfaçam o raciocínio. Com a prática, a sensibilidade tátil desses alunos torna-se tão apurada que eles realizam operações complexas com uma velocidade que frequentemente humilha quem utiliza calculadoras eletrônicas.
O Paradoxo da Escada: O Laboratório Vivo do Terceiro Andar
Há uma ironia pedagógica na localização da ATIDEV. Situada no terceiro andar de um edifício comercial no Calçadão (Rua Esteves Júnior, nº 22), a associação transforma o que deveria ser um obstáculo em um "laboratório vivo". Para os 42 alunos frequentes e os 84 cadastrados, cada degrau é uma aula prática de Orientação e Mobilidade.
Munidos de bengalas, eles executam a técnica da "varredura", mapeando desníveis, identificando o toque do corrimão e detectando obstáculos — como placas de sinalização de limpeza ou transeuntes distraídos — antes mesmo de pisar. Embora essa resiliência seja inspiradora, ela expõe uma ferida aberta: a necessidade de maior suporte do poder público e da iniciativa privada para garantir sedes em níveis térreos. A superação de três andares de escadas não deveria ser um requisito para o aprendizado, mas uma escolha de quem já domina o espaço.
Autonomia Plena: Do Reconhecimento de Frutas à Era Digital
A verdadeira inclusão acontece no detalhe. Nas aulas de Atividade de Vida Autônoma (AVA), os usuários são treinados para o comum. Eles aprendem a cozinhar, lavar e passar, mas também a refinar outros sentidos: identificar o ponto de maturação de uma fruta no mercado pelo toque e olfato, ou organizar as finanças através de aplicativos que leem cédulas de dinheiro e identificam cores.
Essa independência tecnológica, aliada ao domínio de ferramentas como a reglete e o punção (usados para escrever em Braille), devolve ao indivíduo a gestão da própria vida, permitindo que realizem operações bancárias e auxiliem seus familiares. O nível de maestria alcançado é tamanha que desafia o preconceito alheio.
"Às vezes tem pessoas até que diz assim: 'Não, isso aí tá brincando, isso não é cego', de tanta autonomia que ele consegue ter." — Professor Pedro Barbosa.
A Visão que Nasce do Conhecimento
O trabalho da ATIDEV e a preservação do Sistema Braille não tratam apenas de assistência; tratam de cidadania. Quando ensinamos um deficiente visual a mapear o mundo, estamos devolvendo a ele o direito de ser protagonista. A bengala, o Soroban e o smartphone são apenas meios; o fim é a dignidade de ir e vir sem pedir licença.
Encerramos com uma reflexão necessária: em uma cidade que ainda impõe escadas e veículos elétricos silenciosos como novos perigos, como podemos evoluir nosso comportamento para que a bengala seja apenas um guia, e não um escudo contra a nossa falta de percepção? A acessibilidade real começa quando paramos de enxergar a limitação e passamos a enxergar a pessoa.
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