Levantamento indica que encarecimento supera inflação geral e afeta principalmente alimentos in natura.
Um estudo divulgado nesta terça-feira (31) pela organização ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, aponta que a inflação dos alimentos no Brasil possui caráter estrutural, com impacto mais intenso sobre produtos frescos do que sobre alimentos ultraprocessados.
Elaborado pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o levantamento indica que o aumento dos preços não pode ser explicado apenas por fatores sazonais ou conjunturais, como variações climáticas ou oscilações cambiais.
De acordo com o estudo, entre junho de 2006 e dezembro de 2025, o custo da alimentação no Brasil aumentou 302,6%, enquanto a inflação geral medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 186,6%.
No mesmo período, o encarecimento dos alimentos ficou cerca de 62% acima da inflação oficial. Em comparação internacional, o estudo aponta que, nos Estados Unidos, os preços dos alimentos ficaram aproximadamente 1,5% acima da inflação geral no mesmo intervalo.
Entre os grupos alimentícios, as maiores altas registradas foram:
● Frutas: 516,2%
● Carnes: 483,5%
● Tubérculos, raízes e legumes: 359,5%
O levantamento indica que a perda do poder de compra é mais significativa em alimentos in natura. Segundo o estudo, com a mesma proporção de renda destinada à alimentação em 2006, atualmente o consumidor consegue adquirir menos produtos frescos e mais alimentos ultraprocessados.
Entre 2006 e 2026, o poder de compra caiu:
● 31% para frutas
● 26,6% para hortaliças e verduras
No mesmo período, houve aumento na capacidade de compra de produtos ultraprocessados, como:
● Refrigerantes: +23,6%
● Presunto: +69%
● Mortadela: +87,2%
O estudo elenca fatores permanentes que influenciam a inflação dos alimentos no país:
Modelo agroexportador:
O Brasil ampliou significativamente suas exportações de alimentos, passando de 24,2 milhões de toneladas na década de 2000 para 209,4 milhões em 2025. Esse cenário, segundo o levantamento, aumenta a influência do mercado internacional sobre os preços internos.
Mudança no uso da terra:
A área destinada a culturas voltadas à exportação, como soja, milho e cana-de-açúcar, passou de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025. Já culturas voltadas ao consumo interno, como arroz, feijão e mandioca, tiveram redução de área.
Custo de insumos agrícolas:
O estudo aponta aumento expressivo nos custos entre os períodos de 2006-2008 e 2022-2024, incluindo:
● Fertilizantes: +2.423%
● Herbicidas: +1.870%
● Colheitadeiras: +1.765%
● Inseticidas: +1.301%
Concentração de mercado:
O levantamento também destaca a concentração em setores estratégicos, como sementes, pesticidas e indústria alimentícia, com participação relevante de poucas empresas no mercado global e nacional. O estudo aponta ainda a existência de um fenômeno denominado “inflação invisível”, caracterizado pela redução da qualidade dos produtos sem alteração de preço.
Entre os exemplos citados estão a substituição de ingredientes mais caros por alternativas mais baratas em alimentos industrializados.
O levantamento sugere medidas para enfrentar a inflação estrutural dos alimentos, entre elas:
● fortalecimento das economias locais
● equilíbrio entre exportação e abastecimento interno
● ampliação do acesso à terra
● reforço de políticas públicas de abastecimento
● incentivo à produção voltada ao mercado interno
O estudo conclui que a dinâmica de preços dos alimentos no Brasil está associada a fatores estruturais da economia e demanda políticas públicas específicas para mitigação dos impactos sobre o consumo, especialmente entre as populações de menor renda.
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