Segurança em primeiro lugar: Por que a carteira assinada continua sendo o maior objeto de desejo do trabalhador brasileiro, superando as novas modalidades digitais.
O Mito da Flexibilidade Total
Nas redes sociais, a narrativa do "seja seu próprio chefe" e o apelo estético do "glow up" profissional através do empreendedorismo digital parecem dominar o debate público. No entanto, longe do algoritmo das plataformas, os dados da economia real revelam um cenário de pragmatismo resiliente. A pesquisa realizada pelo Instituto Nexus, em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em outubro de 2025, desconstrói a ideia de que o brasileiro médio trocou a segurança pela liberdade irrestrita.
Em um mercado de trabalho atravessado pela digitalização e por novas formas de contratação, o que o trabalhador realmente busca é um porto seguro. Este artigo analisa as descobertas mais contundentes sobre as preferências ocupacionais no Brasil, revelando que a "âncora" da formalidade ainda pesa mais que a promessa do nomadismo digital.
O Trunfo da CLT: Mais que um Contrato, um Porto Seguro
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) sobrevive às sucessivas reformas e à ascensão da gig economy como a modalidade de emprego preferida por 36,3% dos brasileiros. O dado reflete uma hierarquia de necessidades onde a proteção social e a previsibilidade financeira superam a autonomia de horários. O diferencial do emprego formal não reside apenas no salário líquido, mas no "ecossistema de seguridade" que o acompanha, incluindo o acesso à Previdência Social e aos direitos trabalhistas fundamentais.
A valorização desse modelo é uma resposta direta à vulnerabilidade inerente às relações informais. Como bem define Claudia Perdigão, especialista da CNI:
“Embora novas modalidades de trabalho estejam crescendo, como aquelas vinculadas a plataformas digitais, o trabalhador ainda valoriza o acesso a direitos trabalhistas, estabilidade e proteção social, que continuam, portanto, sendo um diferencial relevante mesmo em contexto de maior flexibilização das relações de trabalho.”
Para o trabalhador, a CLT funciona como um mecanismo de defesa contra as oscilações macroeconômicas, garantindo uma rede de proteção que o trabalho autônomo raramente consegue mimetizar.
Geração Z e Millennials: A CLT como "Âncora de Entrada"
A crença de que as novas gerações detestam a estrutura corporativa tradicional é confrontada pelos números. De forma contra-intuitiva, o desejo pela formalidade é ainda mais acentuado entre os jovens, que enxergam na carteira assinada uma base sólida para a construção de suas trajetórias:
41,4% dos profissionais entre 25 e 34 anos priorizam o regime CLT.
38,1% dos jovens na faixa de 16 a 24 anos preferem o emprego formal.
Para esse grupo, a CLT atua como uma "âncora de entrada". Em vez de buscarem o risco do empreendedorismo precoce, esses trabalhadores procuram estabilidade no início da vida produtiva para garantir fôlego financeiro. A busca por segurança, longe de ser um traço conservador, revela uma estratégia de sobrevivência em um mercado que oferece poucas garantias reais fora do sistema formal.
O Aplicativo como Sobrevivência, não como Carreira
O fenômeno das plataformas digitais de transporte e entrega, embora onipresente nas metrópoles, ocupa um espaço periférico no plano de carreira do brasileiro. Apenas 30% daqueles que atuam via aplicativos veem a atividade como sua fonte principal de sustento; para a vasta maioria, trata-se de um "bico" tecnológico para complementar o orçamento.
Ao compararmos as aspirações de ocupação, fica nítido que o modelo "PJ" e o empreendedorismo ainda são nichos diante da força da formalidade:
Trabalho autônomo: 18,7%
Emprego informal: 12,3%
Trabalho via plataformas digitais: 10,3%
Abertura de negócio próprio: 9,3%
Atuação como Pessoa Jurídica (PJ): 6,6%
Esses dados pintam o retrato de um trabalhador que prioriza a rede de segurança em detrimento da incerteza da economia sob demanda.
O Paradoxo da Satisfação: Entre o Bem-Estar e a Escassez de Opções
Um dos dados mais intrigantes do levantamento é o índice de 95% de satisfação dos brasileiros com seus empregos atuais (sendo que 70% se dizem "muito satisfeitos"). No entanto, como especialistas em mercado de trabalho, precisamos olhar sob a superfície desse otimismo.
Embora o contentamento seja alto, a mobilidade é baixíssima: apenas 20% dos profissionais buscaram outra oportunidade recentemente. Esse fenômeno pode ser interpretado como um "protecionismo resiliente": o trabalhador se mantém satisfeito não apenas pela qualidade do posto atual, mas pelo receio do que o mercado oferece lá fora. O dado de que 20% não encontraram oportunidades atrativas sugere que a satisfação pode estar enraizada na falta de alternativas viáveis.
Essa estagnação é visível no tempo de casa: enquanto 36,7% dos profissionais com menos de um ano de empresa ainda buscam novas vagas, esse número despenca para apenas 9% entre aqueles com mais de cinco anos de função. A estabilidade, uma vez conquistada, torna-se um bem valioso demais para ser arriscado.
O Futuro demanda Segurança
Os resultados de 2025 reforçam que o modelo formal não é um fóssil do século XX, mas uma necessidade premente em tempos de incerteza. A resiliência da CLT atravessa gerações e classes sociais, enviando uma mensagem clara ao mercado: o brasileiro não abre mão da proteção social por uma flexibilidade que, muitas vezes, transfere todo o risco para o indivíduo.
A reflexão que fica para gestores e formuladores de políticas públicas é provocativa: as empresas estão realmente preparadas para oferecer a segurança estrutural que o talento brasileiro demanda? Ou continuarão perseguindo uma "flexibilidade" que os dados provam ser uma prioridade secundária? O desafio da inovação no trabalho agora passa, obrigatoriamente, por reconciliar a modernidade digital com a dignidade da proteção social.
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