Com chapa formada por PSB, PDT, PT e PSOL, a estratégia "sem o 13" no Sul busca atrair o eleitor moderado e garantir vaga no segundo turno.
Em um movimento articulado diretamente pelo Palácio do Planalto, Gelson Merísio (PSB) foi apresentado nesta semana, em Florianópolis, como o pré-candidato oficial do Presidente Lula ao governo de Santa Catarina. O evento, que reuniu nomes históricos da esquerda catarinense, formaliza uma guinada pragmática no estado: o ex-deputado e ex-presidente da Assembleia Legislativa, que em 2018 surfou na onda bolsonarista, agora assume a missão de ser o rosto do projeto lulista em solo catarinense. A apresentação contou com a presença de lideranças como Décio Lima (PT), simbolizando a união de forças em torno de um nome capaz de dialogar além das fronteiras tradicionais do PT.
A Engenharia do Planalto: Estratégia "Sem 13" no Sul
A escolha de Merísio não é um fato isolado, mas parte de uma engenharia política minuciosa desenhada pelo Palácio do Planalto para os três estados do Sul. O entendimento em Brasília é que, para vencer a resistência ao petismo na região, é necessário esconder o número "13" da cabeça de chapa nas disputas estaduais.
Essa tática replica o que ocorre nos estados vizinhos: no Rio Grande do Sul, o PT abrirá mão da candidatura própria para indicar o vice na chapa de Juliana Brizola (PDT); no Paraná, o palanque será liderado por Requião Filho (PDT). Em Santa Catarina, o PSB funcionou como o "vaso" ideal para essa estratégia, uma vez que a legenda estava praticamente vazia e sem comando definido no estado, permitindo que Merísio assumisse o controle e trouxesse consigo o PDT e o PSOL.
A composição da chapa majoritária ficou assim definida:
Governador: Gelson Merísio (PSB). - Vice: Ângela Albino (PDT).
Senado: Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL), tendo Luci Choinaque (PT) como primeira suplente de Boppré.
Trajetória e o "Estranhamento" da Militância
Durante o evento, o clima era de engajamento, mas não passou despercebido o "olhar estranho" de setores da velha guarda da esquerda, que ainda processam a metamorfose de um antigo adversário em líder do bloco. Merísio, ciente disso, adotou um discurso de transparência sobre seu passado.
Em sua fala, justificou o apoio a Jair Bolsonaro em 2018 como uma decisão fundamentada na crença de que o país precisava de uma ruptura institucional naquele momento. No entanto, relatou um profundo desencanto com a gestão federal anterior, especialmente pela condução durante a pandemia, o que o motivou a migrar para o campo progressista já em 2022, quando coordenou a campanha de Décio Lima ao governo. Merísio admitiu o estranhamento de parte da militância, mas reforçou que buscará o diálogo constante para consolidar sua liderança na frente ampla.
Análise de Cenário: O Dilema do "Lado do Rio"
No campo da oposição, Merísio surpreendeu ao adotar um tom moderado e, em suas palavras, "fraternal" em relação ao atual governador Jorginho Mello e ao prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD). A moderação tem lógica: Merísio já dividiu palanques com ambos e entende que o confronto pessoal não é o caminho para herdar o eleitorado de centro.
O pré-candidato, contudo, foi incisivo ao analisar a situação de João Rodrigues. Segundo Merísio, o prefeito de Chapecó enfrenta uma tarefa hercúlea por estar posicionado no "lado direito do rio", onde já existe um governador sentado na cadeira buscando a reeleição e ocupando o partido do "dono do rio", o ex-presidente Bolsonaro.
Apesar do tom cordial, Merísio pontuou críticas estruturais ao governo estadual:
Valorização profissional: Críticas à gestão do salário dos professores.
Segurança: Questionamentos sobre a efetividade das políticas de segurança pública.
Imagem externa: A tese de que Santa Catarina tem sofrido um desgaste de imagem fora do estado, precisando resgatar seu prestígio nacional e internacional.
Prognóstico Eleitoral
O cálculo para a campanha de Merísio é puramente matemático. O foco não é converter o eleitor bolsonarista convicto, mas sim garantir que os cerca de 25% de catarinenses que votam fielmente em Lula transfiram esse apoio integralmente para o nome do PSB.
Com o cenário se desenhando muito antes dos prazos das convenções oficiais, a estratégia da frente progressista é clara: ao consolidar o piso de votos de Lula, Merísio se torna o candidato natural para ocupar uma vaga em um eventual segundo turno. O tabuleiro catarinense está encaixado, e a aposta de Lula em um "outsider" da esquerda testará a capacidade de transferência de votos no estado mais bolsonarista da federação.

Política em foco
Upiara Boschi é um jornalista com vasta experiência e reconhecida atuação na cobertura política de Santa Catarina. Com uma carreira consolidada, tornou-se um dos principais nomes na análise dos bastidores do poder no Estado, sendo referência para o público e para a classe política. Atualmente, mantém seu próprio portal de notícias, o upiara.net, e é comentarista em veículos parceiros, como o Grupo ND e a Rádio Eldorado, de Criciúma. Ao longo de sua carreira, Upiara Boschi se destacou pela apuração rigorosa, pela análise aprofundada dos cenários políticos e pela capacidade de traduzir os complexos movimentos do poder para o grande público. Seu trabalho é caracterizado pela busca constante por informações exclusivas e pela contextualização dos acontecimentos, oferecendo aos seus leitores e espectadores uma compreensão mais ampla da política catarinense.
Av. Marcolino Martins Cabral, nº 2238 – Sala 02, bairro Vila Moema, CEP 88705-000, Tubarão - SC
Fone: 3192-0919
E-mail: [email protected]