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COLUNISTAS

A Grande Migração: Por que os Políticos Evangélicos estão Abandonando os Pequenos Partidos?

09/04/2026 12h50 | Atualizada em 09/04/2026 12h50 | Por: Upiara Boschi

O Fim da Pulverização

A política em Santa Catarina atravessa um fenômeno de "afunilamento" que redefine as engrenagens do poder legislativo. O que antes era um cenário marcado pela pulverização de lideranças religiosas em diversas legendas nanicas, agora se transforma em uma migração coordenada para gigantes partidários. O movimento mais emblemático dessa transição é a filiação do deputado federal Ismael dos Santos ao PL. Mas por que esses líderes, que outrora gozavam de autonomia absoluta como "caciques" em siglas menores, decidiram buscar o abrigo — e as regras — de grandes agremiações? A resposta reside em uma combinação de sobrevivência institucional e uma pressão asfixiante vinda das bases eleitorais.

O "Batismo" Político no PL e a Barreira Ideológica

O tapete vermelho estendido em Brasília para Ismael dos Santos foi um espetáculo calculado. Conduzido pelo governador Jorginho Mello, o deputado foi recebido pela cúpula do PL: Valdemar da Costa Neto e o senador Flávio Bolsonaro. A presença de Flávio, tratado internamente como um "presidenciável", sinaliza que a entrada de Ismael não é apenas um reforço regional, mas parte de uma estratégia nacional para consolidar o voto evangélico em torno da marca Bolsonaro para os próximos ciclos.

Contudo, a recepção não foi isenta de fricções. A chamada "ala bolsonarista hard", personificada pela deputada Julia Zanata, manifestou resistência pública. O argumento é a busca pela "pureza" da identidade partidária em Santa Catarina: Ismael, por ter votado ocasionalmente com o governo federal em pautas específicas, não preencheria os requisitos ideológicos mais rígidos da ala purista. Sua entrada no partido foi tratada com uma metáfora curiosa pelo cenário político.

"Foi uma espécie — e até é ruim usar essa palavra no contexto religioso — de batismo. O termo é apto porque simboliza tanto uma iniciação política quanto um rito de passagem para o Ismael dos Santos, que tem sua base na Assembleia de Deus."

O Fim da Era dos "Caciques" em Partidos Nanicos

Para entender essa migração, é preciso olhar para as entranhas do sistema eleitoral. No passado, o campo evangélico operava sob a lógica do "voto de opinião" concentrado em figuras isoladas. Narciso Parisoto foi o expoente máximo desse modelo: um "cacique" que carregava siglas como PSC, PTB ou Democratas nas costas, garantindo sua própria eleição e mantendo total controle regional.

Essa era de "voos solo" acabou. A implementação da cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais alteraram a métrica da sobrevivência partidária. Hoje, um único puxador de votos não consegue mais salvar uma legenda se o partido, como um todo, não atingir o desempenho mínimo. Como o sistema agora exige que "cada partido tenha um time" (um quociente eleitoral robusto), as legendas menores tornaram-se armadilhas de insegurança política. Para lideranças de peso, permanecer em um partido pequeno deixou de ser um sinal de autonomia para se tornar um risco de extinção.

A Pressão do Eleitor: O Fator Bolsonaro

Se a técnica eleitoral empurra os políticos para os grandes partidos, o eleitor evangélico os puxa especificamente para o PL. Há uma conexão orgânica e profunda entre essa base e a figura de Jair Bolsonaro. Para o parlamentar, a permanência em uma sigla neutra ou de centro gera um custo político alto e constante: a necessidade de explicar ao fiel por que ele não está no "partido do capitão".

Essa migração visa extinguir o ruído na comunicação. Ao se filiar ao PL, o político elimina a distância entre sua imagem e a preferência ideológica do eleitorado, simplificando o discurso em um estado onde o governo federal atual enfrenta resistências históricas. É a busca pela homogeneização ideológica como ferramenta de proteção eleitoral.

A Consolidação: De 5 Legendas para Apenas 2

O dado mais revelador desse "afunilamento" é estatístico: hoje, apenas dois partidos concentram os seis parlamentares (federais e estaduais) que, em 2022, foram eleitos por cinco legendas diferentes. A pulverização deu lugar a um duopólio conservador.

A lista de migrações para o PL é pesada e foca na identidade da Assembleia de Deus e da Quadrangular:

Ismael dos Santos (ex-PSD)

Marcos da Rosa (ex-União Brasil)

Júnior Cardoso (ex-PRD)

Jair Mioto (ex-União Brasil)

Enquanto o PL aposta na "pureza bolsonarista", o Republicanos adotou uma estratégia de pragmatismo ecumênico. Para evitar o destino trágico de siglas como o PSC, o Republicanos deixou de ser apenas o "partido da Universal" para se tornar uma "tenda ampla" da direita. Ao abrir o leque, conseguiu atrair nomes como a deputada federal Geovânia de Sá (ex-PSDB), que agora divide o protagonismo com o veterano Sérgio Motta. O Republicanos entendeu que, para sobreviver à cláusula de barreira, precisava diversificar sua base conservadora além de uma única denominação.

 

O Que Esperar das Urnas?

Esta redução drástica na variedade partidária reflete um novo estágio de maturidade — ou de endurecimento — da política brasileira. A clareza ideológica e o peso da estrutura partidária agora sobrepõem-se ao carisma individual das antigas lideranças isoladas. A concentração de força no PL e no Republicanos simplifica o tabuleiro para o eleitor, mas impõe um desafio severo à pluralidade.

Resta uma provocação essencial: essa concentração facilitará a renovação política ou criará barreiras intransponíveis para novas vozes? Em um cenário onde apenas os gigantes sobrevivem, o surgimento de um novo "Narciso Parisoto" vindo de uma legenda pequena parece cada vez mais improvável. As urnas deste ano dirão se o eleitor aprova essa padronização ou se sentirá falta da diversidade que as pequenas legendas, com todos os seus defeitos, costumavam oferecer.

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Upiara Boschi

Política em foco

Upiara Boschi é um jornalista com vasta experiência e reconhecida atuação na cobertura política de Santa Catarina. Com uma carreira consolidada, tornou-se um dos principais nomes na análise dos bastidores do poder no Estado, sendo referência para o público e para a classe política. Atualmente, mantém seu próprio portal de notícias, o upiara.net, e é comentarista em veículos parceiros, como o Grupo ND e a Rádio Eldorado, de Criciúma. Ao longo de sua carreira, Upiara Boschi se destacou pela apuração rigorosa, pela análise aprofundada dos cenários políticos e pela capacidade de traduzir os complexos movimentos do poder para o grande público. Seu trabalho é caracterizado pela busca constante por informações exclusivas e pela contextualização dos acontecimentos, oferecendo aos seus leitores e espectadores uma compreensão mais ampla da política catarinense.

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