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COLUNISTAS

Vacina contra o câncer no SUS: Avanço real ou promessa de ano eleitoral?

15/04/2026 08h00 | Atualizada em 15/04/2026 08h03 | Por: Daisson Trevisol

O Brilho da Inovação vs. A Realidade das Filas

O Diário Oficial celebra o futuro, mas as salas de espera do SUS ainda lutam contra o passado. A recente aprovação da lei que autoriza o Sistema Único de Saúde a fornecer vacinas contra o câncer e terapias avançadas surge como um marco de modernidade na oncologia nacional. No entanto, para quem analisa a gestão pública, o entusiasmo tecnológico gera um questionamento imediato: existe um profundo descompasso entre a incorporação de terapias de alto valor agregado e a capacidade operacional de um sistema que ainda falha no básico. O "gancho" da inovação é sedutor, mas o abismo entre o direito no papel e o acesso no hospital permanece o maior desafio da saúde pública brasileira.

Vacinas de Ponta vs. Filas de Quimioterapia

Embora o financiamento público de tratamentos disruptivos seja o caminho para a democratização da saúde, vivemos um paradoxo logístico. É tecnicamente questionável priorizar terapias futuristas enquanto pacientes oncológicos enfrentam meses de espera para sessões de quimioterapia e radioterapia convencional. O gargalo do sistema não está apenas no remédio final, mas na porta de entrada. Sem a garantia do diagnóstico inicial e do tratamento de base, a vacina torna-se uma solução sofisticada para um paciente que muitas vezes nem sequer conseguiu confirmar sua patologia.

"Será que essa decisão é apenas uma decisão política? Em primeiro lugar, temos que dar acesso às pessoas que ainda estão na fila para fazer uma quimioterapia, uma radioterapia e àqueles pacientes que aguardam o início do diagnóstico — garantindo a avaliação inicial para detectar se o paciente realmente precisa de um tratamento de câncer."

O Desafio dos Testes Genéticos

O grande equívoco da percepção pública é acreditar que essas novas vacinas são medicamentos "de prateleira". Na realidade, tratam-se de terapias personalizadas, dependentes de uma infraestrutura de medicina diagnóstica de precisão. Sem o teste genético para identificar a mutação específica do tumor, a vacina é como um carro de luxo sem combustível: esteticamente impecável, mas funcionalmente inútil.

O problema reside na viabilidade econômica: dados do Laboratório Santa Catarina demonstram que o custo desses exames genéticos e moleculares supera, em larga escala, o valor que o SUS costuma reembolsar aos laboratórios parceiros. Enquanto a tabela de pagamentos não for atualizada para refletir os custos da genética moderna, a vacina aprovada por lei continuará sendo um recurso inacessível para a maioria, pois o sistema simplesmente não remunera o teste que a torna viável.

Estratégia Política ou Pensamento de Futuro?

A aprovação de uma medida de tamanha magnitude em pleno ano eleitoral exige um olhar crítico sobre o que podemos chamar de populismo sanitário. É estrategicamente vantajoso para o poder público anunciar a liberação de terapias de "ficção científica" enquanto a base da pirâmide — biópsias, exames de imagem e diagnósticos precoces — permanece negligenciada.

Há uma distância abismal entre sancionar uma lei e estruturar um sistema de saúde que seja coerente e capaz de sustentar terapias de altíssimo custo de forma perene. O sucesso de uma política de saúde não pode ser medido apenas pelo impacto visual de suas promessas, mas pela solidez da rede que sustenta o cuidado do paciente no mundo real.

A Reforma do Diagnóstico como Base de Tudo

Para que a incorporação tecnológica no SUS seja considerada um avanço real e não apenas uma manobra de marketing, é urgente reformar toda a jornada do paciente. A eficácia de uma terapia avançada é diretamente proporcional à agilidade com que a doença é identificada. Se o diagnóstico demora, o tumor evolui, e a janela de oportunidade para o uso da vacina se fecha.

"É muito difícil, neste momento, chegar a um ponto em que liberamos terapias extremamente caras sem que o sistema de saúde esteja estruturado para funcionar de forma coerente. É um avanço interessante e importante, mas antes de mais nada, precisamos refletir e reformar toda a situação relacionada ao diagnóstico, permitindo um tratamento diferenciado desde a identificação até o final da jornada."

Para onde caminha a oncologia pública?

A nova lei é, sem dúvida, um passo simbólico em direção ao futuro da medicina, mas sua eficácia prática depende da solução de gargalos estruturais que o Brasil arrasta há décadas. A oncologia pública brasileira não precisa apenas de remédios caros; ela precisa de agilidade, de testes genéticos acessíveis e de um sistema que funcione desde o primeiro sintoma do paciente.

Ao fim desta análise, resta uma reflexão fundamental para gestores e cidadãos: o sucesso de uma política de saúde mede-se pelo preço do medicamento no papel ou pela velocidade com que o paciente descobre que precisa dele?

Daisson Trevisol

Saúde em Destaque

Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNISUL e da Medicina, com mais de 20 anos de experiência na área da saúde e gestão pública. Foi Secretário Municipal de Saúde, presidente do COSEMS-SC e diretor do CONASEMS. É mestre em Saúde Coletiva, doutor em Ciências Cardiovasculares pela UFRGS e possui MBA em Liderança e Gestão em Saúde pelo Einstein. Atualmente, é diretor executivo do Laboratório Santa Catarina.

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