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COLUNISTAS

6 Anos Depois: O que a Pandemia nos Ensinou e o Perigo Oculto que Ignoramos em 2026

08/04/2026 17h10 | Atualizada em 08/04/2026 17h11 | Por: Daisson Trevisol

O Eco de um Silêncio que Transformou a Saúde Pública

Em abril de 2026, o calendário nos impõe uma pausa para reflexão. Há exatamente seis anos, Tubarão registrava sua primeira cicatriz profunda na pandemia: o falecimento de um paciente de 60 anos no Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC). Aquele momento, que marcou o início de uma era de incertezas no Brasil, hoje serve como o marco zero para avaliarmos o quanto evoluímos. O cenário de guerra de 2020 deu lugar a uma nova realidade, mas a passagem do tempo traz consigo uma armadilha perigosa: a negligência alimentada pela falsa sensação de segurança.

A Fortaleza de Amurel: O Salto na Regionalização da Saúde

Se a crise testou nossos limites, o legado deixado na infraestrutura hospitalar é o que podemos chamar de "legado de ferro". Há seis anos, a estrutura de terapia intensiva em Tubarão era restrita, contando com 20 leitos de UTI pelo SUS e apenas 20 leitos privados (10 no HNSC e 10 no Hospital Socimed). O gargalo era evidente e o risco de colapso, constante.

Hoje, em 2026, a realidade da região da Amurel é de robustez e, acima de tudo, descentralização. Saltamos para 60 leitos de UTI estrategicamente distribuídos: 30 permanecem no Hospital Nossa Senhora da Conceição, enquanto 10 leitos em Imbituba, 10 em Laguna e 10 no Hospital Unimed, em Tubarão, completam a rede. Essa regionalização da saúde não é apenas uma vitória numérica; é um ganho vital no "tempo-resposta". Ter leitos de alta complexidade em cidades vizinhas significa que o cidadão de Laguna ou Imbituba não precisa mais ser deslocado em estado crítico, garantindo um atendimento imediato que salva vidas.

O Triunfo do Escudo Vacinal: Uma Vitória de 700 Mil para 1.700

Os números de 2025 contam uma história de triunfo científico que beira o inacreditável quando comparada ao auge da crise. Enquanto o Brasil chorou mais de 700 mil mortes nos anos mais sombrios da COVID-19, o último ano fechou com pouco mais de 1.700 óbitos em todo o território nacional. Esse abismo estatístico tem um único responsável: a imunização em massa.

Como destaca a análise técnica dos dados:

"A vacinação, a imunização funcionou muito bem e o número de óbitos caiu vertiginosamente."

O vírus da COVID-19, felizmente, apresentou poucas mutações nos últimos anos, permitindo que a estratégia vacinal fosse refinada e focada nos grupos de maior vulnerabilidade. A ciência construiu o escudo, e ele resistiu.

A Ironia do Inimigo Esquecido: O Avanço da Influenza

Entretanto, a vitória sobre uma pandemia parece ter aberto uma "porta lateral" para um inimigo antigo e subestimado. Em 2026, vivemos uma ironia trágica: a COVID-19 mata significativamente menos que a gripe. Atualmente, os óbitos por COVID representam apenas um quarto (1/4) das mortes causadas pela Influenza.

Enquanto focamos nossas preocupações no vírus que parou o mundo, a gripe — quatro vezes mais letal no cenário atual — tem encontrado um caminho livre devido à baixa adesão vacinal. O sucesso no controle da COVID-19 criou uma zona de conforto perigosa, onde a população acredita que as doenças respiratórias foram vencidas, ignorando que o vírus Influenza permanece em constante mutação e com alto potencial de gravidade.

O Alvo Errado: Por que a Gripe está Vencendo a Batalha da Prevenção

O grande gargalo da saúde pública hoje não é a falta de respiradores, mas o braço estendido para a agulha. O vírus da gripe exige um pacto de renovação anual que muitos estão ignorando. A consequência direta é o aumento de internações por complicações graves, como as pneumonias bacterianas secundárias, que hoje superlotam os leitos que tanto lutamos para construir.

A urgência de imunização nos postos de saúde de Tubarão é crítica para:

Idosos: Cuja resposta imunológica exige o reforço sazonal para evitar o agravamento respiratório.

Pessoas com comorbidades: Indivíduos que, ao contraírem Influenza, enfrentam um risco multiplicado de falência de órgãos e hospitalização prolongada.

Diferente da COVID-19, que agora demanda atenção focada em grupos específicos, a gripe exige uma barreira coletiva. A vacina está disponível tanto na rede pública quanto privada, aguardando apenas a consciência do cidadão.

O Pacto Coletivo no Pós-Crise

Seis anos após o marco inicial no HNSC, o fantasma da COVID-19 foi domado pela ciência e pela infraestrutura regionalizada. Contudo, a vigilância em saúde não pode ser sazonal. O perigo de 2026 é o silêncio e a complacência. De nada servem os 60 leitos de UTI da Amurel se eles continuarem sendo ocupados por doenças que poderiam ter sido evitadas com uma visita de cinco minutos ao posto de vacinação.

Ao olharmos para o futuro, a pergunta que fica é provocativa: estamos sendo negligentes com as doenças "antigas" só porque superamos o trauma da "nova"? A saúde pública não é apenas uma entrega do Estado; é um pacto individual de responsabilidade coletiva. Manter a vacinação em dia é a única forma de garantir que o legado da pandemia seja de vida, e não de lições esquecidas.

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Daisson Trevisol

Saúde em Destaque

Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNISUL e da Medicina, com mais de 20 anos de experiência na área da saúde e gestão pública. Foi Secretário Municipal de Saúde, presidente do COSEMS-SC e diretor do CONASEMS. É mestre em Saúde Coletiva, doutor em Ciências Cardiovasculares pela UFRGS e possui MBA em Liderança e Gestão em Saúde pelo Einstein. Atualmente, é diretor executivo do Laboratório Santa Catarina.

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