Operação "Real State" desarticula grupo criminoso que utilizava engenharia social e assinaturas digitais para transferir terrenos de luxo de forma fraudulenta.
A Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC), com apoio estratégico do Ministério da Justiça e Segurança Pública, deflagrou na quarta-feira, 15 de abril de 2026, a Operação "Real State" para desarticular uma sofisticada organização criminosa especializada em fraudes imobiliárias de alto padrão.
O grupo é investigado por subtrair R$ 12 milhões através da transação ilegal de cinco terrenos de luxo em Jurerê Internacional, Florianópolis. A ofensiva cumpriu mandados em seis estados, revelando um esquema que combinava engenharia social direcionada a pessoas influentes, o bypass técnico de autenticações biométricas no portal Gov.br e a utilização de documentos físicos falsificados.
O objetivo central era o lucro rápido mediante a venda de lotes por valores abaixo do mercado e a subsequente lavagem de dinheiro.
Anatomia do Golpe: Invasão Digital e Falsificação Documental
O modus operandi da organização demonstrava um elevado rigor técnico e divisão de tarefas entre falsários e especialistas em TI. A investigação aponta que o grupo operava em duas frentes coordenadas:
Ataque Digital e Bypassing Biométrico: Diferente de invasões comuns, os criminosos utilizavam spearphishing direcionado a figuras de influência para roubar credenciais. Com acesso aos dados, o grupo empregava técnicas para burlar a autenticação biométrica do portal Gov.br, permitindo o uso indevido de assinaturas eletrônicas para realizar manipulações societárias e transferências de propriedades sem o consentimento dos donos.
Falsificação e Alerta Notarial: O grupo utilizava procurações físicas falsificadas, supostamente emitidas por cartórios do Ceará. O esquema começou a ruir quando um cartório suspeitou do excesso de documentos vindos do estado cearense para transações em áreas nobres de Florianópolis, servindo como o ponto de virada para a investigação policial.
Para ocultar o rastro financeiro, o grupo realizava a "pulverização" dos valores em diversas contas de "laranjas". Caso condenados por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e organização criminosa, os envolvidos podem enfrentar penas que somam até 21 anos de prisão.
O Alvo: Por que a conta Gov.br atrai criminosos?
A plataforma Gov.br consolidou-se como o alvo prioritário por centralizar o acesso a serviços sensíveis e permitir assinaturas com validade jurídica. Criminosos buscam elevar o nível das contas para obter poderes de transferência patrimonial e acesso a dados financeiros.
Nível de Segurança - Critérios e Acesso a Serviços - Exigências de Segurança
Bronze - Acesso a serviços digitais básicos e menos sensíveis. - Segurança mínima; não permite ativação de verificação em duas etapas.
Prata / Ouro - Acesso a bancos credenciados, resgate de valores esquecidos e assinaturas eletrônicas. - Exige reconhecimento facial ou validação via bancos; permite gerenciar dispositivos e usar 2FA.
O Fator Humano: A Engenharia Social como Ferramenta de Crime
De acordo com as diretrizes da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), a engenharia social explora a confiança e o funcionamento cognitivo humano. O sucesso do golpe reside em manipular a vítima para que ela forneça informações voluntariamente, utilizando dois sistemas de pensamento:
Sistema 1 (Rápido/Automático): Onde agimos por hábito e modelos mentais. Criminosos mimetizam padrões esperados (como um suporte técnico) para que a vítima não questione solicitações de senhas.
Sistema 2 (Lento/Racional): Acionado apenas em situações de estranhamento. Golpistas tentam impedir esse acionamento usando gatilhos de urgência, autoridade ou empatia.
O grupo da Operação "Real State" também aplicava técnicas de "Entrevista", como o "Errar para ser corrigido", onde o golpista fornece uma informação propositalmente incorreta para que a vítima, ao corrigi-lo, revele o dado sensível desejado.
Diferença Técnica: Phishing vs. Spearphishing
Phishing: Ataque em massa, como uma rede de pesca, enviando mensagens genéricas para milhares de usuários.
Spearphishing: Ataque cirúrgico ("pesca de arpão"). Utiliza informações específicas da vítima e de sua instituição para maximizar a credibilidade, chegando a ter mais de 90% de taxa de sucesso.
Guia Prático de Proteção ao Cidadão
A blindagem do patrimônio digital e imobiliário exige a adoção rigorosa de protocolos de segurança:
Habilitação da Verificação em Duas Etapas: No aplicativo Gov.br, acesse "Segurança da conta" -> "Verificação em duas etapas" -> "Habilitar". O código é gerado exclusivamente no app, nunca enviado por SMS.
Gestão Ativa de Dispositivos: Verifique regularmente em "Dispositivos autorizados" se há navegadores ou aparelhos desconhecidos. Remova imediatamente qualquer acesso suspeito.
Elevação de Nível para Prata ou Ouro: Utilize a biometria facial para aumentar o nível da conta, o que permite o uso de ferramentas avançadas de monitoramento e proteção.
Ativação do "Sistema Lento": Desapegue do "abrir por hábito". Antes de clicar em links ou anexos, questione a necessidade e a origem. Verifique identidades ligando para números oficiais da instituição que supostamente entrou em contato.
A investigação da Operação "Real State" prossegue com a análise de provas digitais para identificar outros braços da organização. Para garantir a segurança jurídica, a Polícia Civil de Santa Catarina recomenda que proprietários de imóveis consultem periodicamente os cartórios de registro para verificar a integridade da matrícula de seus bens, atuando de forma proativa contra movimentações atípicas.
Suspeitas de ações de engenharia social ou invasões podem ser reportadas à ABIN pelo e-mail: [email protected]. Vítimas de fraudes devem registrar o Boletim de Ocorrência imediatamente junto à Delegacia de Defraudações da PCSC.
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